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  • Pablo Pessoa

A xilogravura de J. Borges

Atualizado: 16 de abr. de 2020


No dia 19 de setembro o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconheceu a literatura de cordel como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro. Este foi um importante reconhecimento ao Cordel, maior representante da literatura popular nordestina. J. Borges - José Francisco Borges é um dos principais representante da xilogravura e do cordel e recebeu o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, concedido pelo Estado aos mestres da cultura popular pernambucana, reconhecidos como patrimônio imaterial.

Nosso encontro com J. Borges se deu no Museu da Gravura, na cidade Bezerros em Pernambuco, local onde vive e trabalha. O espaço é administrado por Borges, onde funciona também seu ateliê e loja para venda de seus trabalhos. O espaço e recheado de gravuras e matrizes de diferentes tamanhos e cores.

Foto: Pablo Pessoa

J. Borges é um grande contador de histórias, então a conversa logo se transformou em uma aula sobre o cordel, a xilogravura e sua história. Borges conta que começou a escrever cordéis na década de 1960, devido a sua facilidade de construir rimas. A necessidade de ilustrar as capas dos folhetos o levou até a xilogravura, onde alcançou fama internacional. O mestre lembra saudoso dos tempos em que vendia os cordéis nas feiras nas feiras de Pernambuco, Paraíba, Ceará e, principalmente, na Praça do Mercado de São José, no Recife. Perguntei a ele sobre a produção de novos folhetos, a resposta veio em tom de desânimo, “hoje em dia ninguém liga mais para o cordel, vez ou outra vem um estudante aqui e compra para fazer trabalho da escola, assim estou fazendo apenas por encomenda.” E a xilogravura? Questionei. J.Borges abriu um sorriso, alisou uma tábua de umburana que estava sobre a mesa e respondeu, “essa sim eu faço muito, tem muita procura, muita encomenda, no início do ano recebi uma encomenda da caixa para uma exposição comemorativa dos meus 80 anos”. Quando o senhor começou a fazer xilogravuras? Aprendeu com alguém, teve algum mestre? “Comecei a fazer gravuras com 21 anos, pela necessidade de ilustrar um cordel que escrevi, nunca tive mestre nem escola para aprender gravuras, fiz por necessidade e continuei porque a primeira deu certo.”

Foto: Pablo Pessoa

Borges falou que a tábua de umburana sobre a mesa era para uma xilogravura especial encomendada pelo clube de futebol Náutico em comemoração do Título de Campeão Pernambucano. Aproveitei para perguntar seu processo de gravação e quais tipos de ferramentas e madeiras utiliza para produzir a matriz? Borges respondeu, “eu desenho direto na madeira, gosto de uma chamada louro-canela, mas também uso muito a umburana (aponta para tábua sobre a mesa), risco com lápis, uma faca ou estilete para o recorte, depois vem a goiva para rebaixo do relevo, para acabamento eu uso o buril, goivas, e pregos com detalhes feito por mim.”

Foto: Pablo Pessoa

O senhor recebeu o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco e é considerado um mestre da cultura popular nordestina, eu vi várias xilogravuras de seus filhos aqui a venda junto com as suas. Como você vê a continuidade dessa arte dentro da família e em sua cidade? Além dos seus filhos que fazem xilogravura, atualmente você ministra cursos ou tem alunos em seu ateliê?

Borges abre um grande sorriso e fala com orgulho “Meus filhos fazem gravuras e eu as vezes sou chamado para dar aulas no Brasil e em vários países como, Estados Unidos, França, Suíça, Venezuela, Cuba, Santiago do Chile e Alemanha.” Edna, que trabalha no museu completou a resposta do mestre “cinco dos filhos do mestre aprenderam o seu trabalho, porém atualmente apenas o Pablo Borges e o J.Miguel que vivem dessa arte, fora eles, sobrinhos, primos e até sua cunhada trabalham com xilogravura e vivem da arte, na cidade todos que fazem gravura são da família Borges. Quanto aos alunos, no ateliê ele recebe constantemente visitas das mais diversas regiões do estado, principalmente alunos de escolas públicas e particulares que vem em busca da história do artista e para verem de perto a criação do cordel e suas xilogravuras. Borges recebe a todos em seu ateliê onde os alunos podem entrevistá-lo e depois ficam livres para visitar e acompanhar o processo de criação da matriz a xilogravura, a visitação termina com uma demonstração de como se faz a impressão das xilos.”

Foto: Pablo Pessoa

O seu estilo de desenho se transformou em uma das principais referências visuais para xilogravura nordestina, é muito comum a publicidade utilizar seu estilo de desenho quando representa imagens nordestinas. Como o senhor percebe a importância da xilogravura para cultura popular nordestina e como você ver a continuidade dessa arte nas gerações futuras?

“Eu acho a xilogravura muito importante porque atualmente ela está ilustrando vários eventos, jornais, revistas, estam circulando em filmes e tv, decorando as paredes do mundo inteiro, que seja em casa, em bares, hotéis e muitas outras situações.” Edna, mais uma vez completa a resposta do mestre, “A xilogravura é muito forte na nossa cultura Nordestina. É uma arte! A maioria dos artista xilogravadores que conhecemos retratam a vida do nosso povo as crenças, folclore e o cotidiano em geral, são obras que mantém viva a nossa história, isso é muito importante para novas gerações verem na arte do nosso povo, nossa cultura registrada, mesmo quem nunca veio ao Nordeste pode conhecer e sentir um pouco do nosso povo através da nossa arte, isso é muito bom! E isso vem passando de geração, e servido de inspiração para muita gente que vem começando agora com a arte da gravura e também com outros que estão surgindo inspiradas nas nossa técnica como a menina Maria Xilo e o Perrow do Recife, artistas que disseram se inspirar na obra do Mestre J.Borges e apesar de usarem uma técnica diferente suas artes são inspiradas no cotidiano do povo, remetendo muito ao sertão e aos sotaques da região, isso é bem legal!!!

Nossa conversa acabou com a chegada de um ônibus lotado de crianças que vieram conhecer o mestre. J.Borges foi conversas com os pequenos e contar suas histórias, sempre muito simpático e cheio de alegria.

Foto: Pablo Pessoa

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